Mais um dia

“Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself.” – Virginia Woolf.

Saiu para mais um dia, saiu porque tinha uma função, uma tarefa. Um dia como todos os outros, um novo dia.
Todos os dias saímos de casa como se fosse mais um dia, o mesmo dia, temos a mesma rotina matinal, quase sempre nos dirigimos para o mesmo local, mas o que não nos lembramos é que aquele dia não é mais um dia, aquele dia é, o dia. Todos os dias têm de ser, o nosso dia, o nosso único dia, porque esse dia poderá não ser como os próximos dias. Esses próximos dias que nós estamos tão certos que serão como o outro dia, o anterior. 

Ele saiu de casa para mais um dia de trabalho. O dia estava lindo, céu azul, sol brilhante. Ligou o radio do carro tal qual fazia todas as manhãs. O caminho para o trabalho era sempre um prazer, tinha a sorte de viver numa cidade litoral com belas paisagens e por isso o percurso para o trabalho era agradável.
O dia de trabalho foi normal, o de sempre, com alguns problemas pelo meio mas nada que não tivesse resolvido antes, em outras ocasiões. Era feliz naquela profissão, gostava do que fazia, aos trinta e dois anos considerava-se uma pessoa realizada.

Mais um dia de trabalho chegava ao fim. Dirigiu-se para o carro no estacionamento do prédio. Era uma sorte o prédio ter estacionamento, era sempre muito difícil arranjar um lugar para estacionar na baixa da cidade. O caminho para casa fora tranquilo, o transito naquele dia estava perfeito – ora ai está uma coisa que podia ser sempre assim, se há coisa de que ele não gostava era do transito que apanhava quase sempre no regresso a casa. – Parou no supermercado, no caminho, para comprar algo para o jantar. – O que comeria essa noite, esta era sempre uma dúvida cruel, incrível como é difícil decidir o que se vai comer. – Acabou por decidir que faria uma massa e alguns vegetais, talvez um ovo para acompanhar, decididamente aquele não era um dia de inspiração culinária. Pagou, regressou ao carro, colocou os sacos no banco de passageiro ao seu lado. Ao sair do estacionamento do supermercado um caminhão parado na berma da estrada impossibilitava a visibilidade dos condutores que saiam do estacionamento. Pensou o porquê de algumas pessoas não terem nenhum senso de civismo e pararem os seus carros em qualquer lugar como se a via publica fosse o jardim das suas casas.

Chegando a casa pousou os sacos na cozinha e foi para o quarto, despiu-se e foi tomar um banho, incrível como o tempo estava a aquecer e ainda  nem sequer era verão. Após o banho refrescante foi para a cozinha preparar o jantar, a casa estava silenciosa como sempre, não que isso fosse um problema, gostava de morar sozinho ter o seu espaço, os seus amigos já eram quase todos casados ele era o solteirão do grupo e por isso ouvia todos os tipos de piadas dos companheiros. As vezes pensava que já era hora de casar ter uma família, mas ainda não tinha encontrado a pessoa certa para isso. Era feliz, sim, era feliz.
Começou a cozinhar, a massa já estava a “dançar” dentro da panela com água a ferver, pegou nos ovos para preparar a omelete partiu o primeiro e virou o conteúdo numa tigela, partiu o segundo e qual não foi o seu horror quando ao vira-lo para a tigela uma pequena ave, caio sobre o primeiro ovo, o embrião já tinha algumas penas e estava ali morto. Aquela imagem, aquela pequena criatura ali, com a sua vida interrompida a boiar na própria matéria que a formou.
Naquele momento ele viu como a vida é tão… Como tudo que concebemos de uma maneira se transforma e vira uma outra realidade, nós conhecemos as coisas de uma forma mas esquecemo-nos que se deixarmos essa forma se desenvolver ela poderá tomar outras formas e por consequência poderá ter outra verdade. Temos tudo como certo, está tudo tão controlado que quando nos deparamos com uma criatura dentro de ovo ficamos chocados, com nojo, mas a verdade é que todos os ovos que consumimos poderiam ter gerado aquele ser que agora boiava naquela tigela. Aquela outra realidade, outra verdade da mesma matéria. É claro que com este pensamento ele não estava a querer dizer que é uma maldade comer ovos, como se de um pecado se tratasse, um aborto, não, claro que não. Foi só o espanto de se deparar com aquela outra realidade do ovo. Uma outra realidade para a mesma verdade.
Ele não conseguiu comer os ovos, deitou fora o conteúdo da tigela e comeu a massa.
O telefone tocou, era o seu melhor amigo a perguntar a que horas passaria na sua casa para mais uma noite de copos, afinal, estava uma bela noite lá fora.

John V.

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